Críticada nas redes sociais, Funceme explica diferenças entre previsões no CE

As chuvas deste mês de janeiro (período de pré-estação) são provocadas por fenômenos climáticos diferentes daqueles do período chuvoso, segundo a Funceme ( Amaury Alencar )
Mesmo com as chuvas registradas em todo o Estado nos últimos dias, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) manteve no último dia 20 o prognóstico de que as precipitações devem ficar abaixo da média, prolongando a atual seca pelo quinto ano consecutivo. A diferença entre o que é previsto e o que se vê por todo o Ceará tem levado a instituição a ser criticada, mesmo tendo acertado os prognósticos de seca nos últimos 4 anos.

Para explicar o porquê dessa divergência, o Diário do Nordeste entrevistou o presidente da fundação, Eduardo Sávio Martins. Segundo ele, a previsão divulgada se refere ao período entre fevereiro a abril, ou seja, ainda não iniciado. As chuvas deste mês de janeiro (período de pré-estação) são provocadas por fenômenos climáticos diferentes daqueles do período chuvoso.

Mesmo assim, Martins reforça que os relatórios da Funceme apontam previsões, e não certezas. Para 2016, as probabilidades associadas às categorias Abaixo da Média, Em Torno da Média e Acima da Média são, respectivamente: 65%, 25% e 10%. “Neste caso, a categoria mais provável é a abaixo da média. Significa que vamos ter seca meteorológica? A resposta é não!”, ressaltou. “Significa que, para o estado do Ceará, sob as mesmas condições iniciais do momento da previsão (Janeiro), teríamos 65% de chance de termos a média observada de precipitação na categoria abaixo da média”, explicou.

“Nosso papel é apontar adequadamente os riscos aos setores do governo e sociedade para viabilizar a antecipação das ações do governo diante o quadro futuro possível”, justificou o presidente da Funceme.

Eduardo Sávio Martins destaca ainda que a instituição poderia evitar comentários depreciativos ao apontar um cenário em torno da média. “Neste momento não estaríamos recebendo muitas críticas, mas quem sabe se daqui a quatro meses, e agora já sob efeito do forte El Niño, não receberíamos críticas ainda mais pesadas por não termos alertado à sociedade e ao governo?”, questiona. “A ZCIT que se busca prever é a Zona de Convergência Inter-Tropical e não a Zona de Conforto Inter-institucional. Temos que ser objetivos neste sentido, e é como podemos contribuir para a preparação a uma eventual seca”, defende.

O gestor disse ainda que a fundação investiu “muito em modelagem de clima visando usá-la como base de nossas previsões para a estação nos resultados destes modelos”. E completou: “Nos últimos 4 anos de seca, foi exatamente a categoria abaixo da média a indicada como a mais provável”.

Leia a entrevista completa com Eduardo Sávio P. R. Martins, Presidente da Funceme

Desmitificando a Previsão Climática

Quando e onde a Funceme avalia por que surgiram as opiniões contrárias às suas previsões?

É natural termos opiniões contrárias à previsão diante a natureza da previsão e as chuvas intensas em Janeiro no estado. Ademais, a previsão refere-se ao período entre Fevereiro a Abril e não Janeiro. As chuvas de Janeiro, ou pré-estação de maneira geral (dezembro a meados de Fevereiro), são provocadas por Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis, enquanto as chuvas da estação (Fevereiro a Maio) são em geral provocadas pela Zona de Convergência Tropical. Na maioria das vezes as críticas “esquecem o calendário”!

Por isso mesmo, iniciamos a divulgação do prognóstico com a previsão para os próximos dias, a qual era favorável às chuvas, e sobre os números passados das chuvas de Janeiro em anos de El Niño moderado a forte. A tentativa era dissociar as chuvas que estavam ocorrendo naquele momento e a previsão para a estação. Tenho que reconhecer que a imprensa de maneira geral, e o Diário do Nordeste em particular, fez um excelente trabalho em informar adequadamente ao leitor. Contribuindo para essa percepção negativa, temos que reconhecer que tivemos maus exemplos no passado da instituição de como não comunicar um prognóstico, o que marca o imaginário popular durante décadas.

Em Janeiro de 2016 ocorreram chuvas que ultrapassaram a média, o que afeta a percepção da sociedade sobre a previsão, mas é preciso pontuar que o período da previsão é outro, Fevereiro a Abril e não Janeiro, e que a previsão é probabilística. Ainda que menos provável, temos probabilidade associadas a outros cenários mais favoráveis (em torno ou acima da média). Neste contexto, apontamos os riscos associados a cada cenário para o planejamento das ações de resposta.

Devemos relembrar que em Janeiro de 1998, ano também de El Niño forte, o mesmo ocorria em Janeiro, com ocorrência de chuvas acima da média em várias regiões do estado, ficando o Ceará 30,9% acima da média naquele mês. À época, muitos celebravam o bom inverno, mas as chuvas de Fevereiro a Maio ficaram 60,2% abaixo da média, com déficits significativos e superiores a 50% em todas as regiões do estado no período.

Com toda esta atenção ao período chuvoso, ninguém lembra o trabalho de alto nível também realizado nas outras áreas de atuação da FUNCEME: recursos hídricos, meio ambiente, pedologia, energias alternativas, entre outras.

Como poderíamos entender a previsão emitida pela Funceme?

Pela incerteza inerente a esta previsão, a dificuldade no entendimento no seu significado surge. Veja o exemplo da previsão para o período Fevereiro a Abril de 2016 com as seguintes probabilidades associadas às categorias Abaixo da Média, Em Torno da Média e Acima da Média, respectivamente: 65%, 25% e 10%. Neste caso, a categoria mais provável é a abaixo da média. Significa que vamos ter seca meteorológica? A resposta é não! Significa que, para o estado do Ceará, sob as mesmas condições iniciais do momento da previsão (Janeiro), teríamos 65% de chance de termos a média observada de precipitação na categoria abaixo da média.

Ou seja, se em 20 anos tivéssemos as mesmas condições do momento da previsão, teríamos em média 13 anos secos (65% de 20 anos), 5 anos em torno da média (25% de 20 anos) e 2 anos acima da média (10% de 20 anos). Assim, a previsão tenta apontar os riscos associados a cada cenário, e não afirmar deterministicamente que teremos seca!

Nosso papel é apontar adequadamente os riscos aos setores do governo e sociedade para viabilizar a antecipação das ações do governo diante o quadro futuro possível. A “torcida”, mesmo neste cenário de previsão, é para que a categoria acima da média seja observada, ainda que sua probabilidade seja de 10%. Entretanto, acredito que a preparação para os possíveis eventos de seca é que determinam como vamos ser impactados pelas chuvas da estação. Se só a chuva determinasse como conviveríamos com as secas, não teríamos os bons exemplos de Austrália e Califórnia, regiões que já convivem com secas por 9 e 5 anos, respectivamente.

Por que o órgão acredita que essas informações são tão difundidas?

Este é um fenômeno mundial e comum a órgãos de meteorologia. Temos filmes a respeito como o The Weather Man com Nícolas Cage. Assim como no futebol, todos nós temos o que falar, criticar, sobre as previsões emitidas pelos órgãos de Tempo e Clima. Se prevemos que amanhã tem alta probabilidade de ocorrência de chuvas no Litoral de Fortaleza em caráter isolado, o termo “probabilidade” não é utilizado na avaliação do usuário. Pode até ter chovido na região da previsão, mas se a chuva não ocorreu onde ele observou, o entendimento é que o órgão errou! A incerteza da informação dificulta o entendimento, mas é a natureza da previsão, é o que melhor a ciência pode prover.

Poderíamos buscar o conforto institucional, e colocar a categoria em torno da média como a mais provável. Neste momento não estaríamos recebendo muitas críticas, mas quem sabe se daqui a quatro meses, e agora já sob efeito do forte El Niño, não receberíamos críticas ainda mais pesadas por não termos alertado à sociedade e ao governo? A ZCIT que se busca prever é a Zona de Convergência Intertropical e não a Zona de Conforto Interinstitucional. Temos que ser objetivos neste sentido, e é como podemos contribuir para a preparação a uma eventual seca.

É possível dizer quais previsões Funceme já “acertou” nos últimos anos, pelo menos com relação à quadra chuvosa?
Por sua natureza probabilística, um sistema não pode ser avaliado em um único ano, mas em um conjunto de anos. Nosso sistema anteriormente tinha a tendência de apontar a categoria em torno da média como a mais provável, mas investimos muito em modelagem de clima visando usá-la como base de nossas previsões para a estação nos resultados destes modelos. Nos últimos 4 anos de seca, foi exatamente a categoria abaixo da média a indicada como a mais provável. Assim, sem complicar muito a análise da performance de nosso sistema para melhor entendimento do leitor, nosso sistema tem conseguido representar adequadamente o clima recente do estado, em particular, para a estação chuvosa.

Há algum percentual de acerto ou de confiabilidade sobre as previsões divulgadas?

A avaliação do sistema de previsão é feita rotineiramente comparando-se as probabilidades de observamos as três categorias de previsão e compará-las com a probabilidades indicadas pelo sistema de previsão. As previsões para a estação vem sendo muito bem avaliadas neste contexto através de várias métricas estatísticas aceitas na literatura. Contamos com a colaboração de pesquisadores de várias universidades e centros de pesquisa na avaliação do nosso sistema de previsão.

A Funceme pretende desenvolver ou já desenvolveu alguma campanha para desmistificar o suposto descrédito de suas previsões?
Nós temos trabalhado em material de comunicação mais acessível ao leitor, como cartilhas, textos desmistificando a previsão, e colocando a disposição do usuário no nosso sítio web. Entretanto, é pouco diante do que deveríamos estar fazendo. Este não é um problema só da FUNCEME, mas de uma das áreas que atuamos, a meteorologia.

Por exemplo, em 2009, o UK Met Office lançou a sua previsão sazonal comunicando de forma determinística: teremos um verão de churrasco. Isto não se concretizou e o órgão sofreu críticas severas da sociedade, passando por discussões no Parlamento Britânico, resultando na formação de uma comissão para analisar a questão e indicar soluções. Entre as soluções os membros indicaram a necessidade de maior investimento em educação básica sobre incerteza e ciências atmosféricas segundo planos estratégicos atualizados a cada 6 anos. O instituto ficou marcado por este único evento, e em 2015, ainda sob o efeito deste evento, e devido a uma nova previsão que não apontou adequadamente os riscos dos cenários das chuvas do verão, o instituto perdeu um importante contrato com a emissora BBC.

Como funciona o trabalho de prever o tempo na Funceme? Existem quantos profissionais? Eles atuam em quais áreas? Quais qualificações possuem?

Antes de falar em Previsão de Tempo, é preciso distinguir entre a previsão de Tempo e Clima. Quando falamos em Previsão de Tempo estamos nos referindo à previsão para os próximos dias, no caso da FUNCEME, os próximos 3 dias. A Previsão de Clima refere-se, em geral, a um período de 3 meses ou superior.

A Previsão de Tempo é realizada duas vezes por dia, uma no início da manhã e outra no fim da tarde, e é feita por meteorologistas a partir da análise dos campos atmosféricos, do monitoramento das imagens de satélite e dos resultados de modelos numéricos de Tempo. Nós temos hoje poucos profissionais, sendo 3 meteorologistas. O Governador Camilo Santana autorizou o trâmite do processo do plano de cargos e concurso público para fortalecer a instituição. Hoje contamos com muitas parcerias para prover informação de qualidade para o usuário final.

Como é possível ilustrar as diferenças entre as chuvas dos últimos dias e a quadra chuvosa?

Imagine um grande sistema com circulação horária na alta atmosfera (cerca de 12km de altura) com o centro dele sobre o Oceano Atlântico e a borda esquerda sobre o Nordeste do Brasil, incluindo o Ceará. Nas bordas, há formação de nuvens carregadas de chuva, trazendo precipitações. Este é o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN) que está atuando hoje no Estado. Climatologicamente, esses sistemas têm atuação, principalmente, nos meses da pré-estação chuvosa (dezembro e janeiro), podendo ocorrer ainda durante as primeiras semanas de fevereiro. São sistemas transientes, de difícil previsão.

A partir daí, já durante a estação chuvosa, o sistema indutor de chuvas é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que pode ser descrita como uma imensa faixa de nuvens carregadas, formadas pela convergência dos ventos alísios, e que se posiciona no Oceano Atlântico, próximo à linha do Equador. Este é o principal sistema que traz chuvas no Estado e sua atuação aqui acontece, normalmente, entre fevereiro e maio. Por isso a nossa quadra chuvosa é neste período. Não foi a Funceme que escolheu quando é o período de chuvas, a análise dos dados pluviométricos é que indicou que nesses quatro meses, quando a ZCIT atua, se concentram 75% das chuvas do ano.

E o que faz uma quadra chuvosa ser acima, em torno ou abaixo da média histórica é a permanência da ZCIT posicionada sobre o Ceará, trazendo chuvas para o Estado. Para que isso aconteça é necessário que a parte sul do Atlântico tropical esteja mais aquecida que a parte norte, pois assim a ZCIT se posiciona abaixo do equador e pode alcançar o Ceará favorecendo a ocorrência de boas precipitações.

A previsão da Funceme para Fevereiro, Março e Abril é o resultado da análise dos dados atmosféricos e oceânicos e das simulações dos modelos climáticos dinâmicos e estatísticos, que refletem o padrão de temperatura da superfície do Pacífico equatorial (hoje encontra-se mais aquecida do que a normal, portanto, temos o fenômeno El Niño estabelecido) e do Atlântico tropical, e que vão influenciar a posição da ZCIT. Assim, o que nós divulgamos no último dia 20 de janeiro é que, baseado nas informações atuais, há 65% de chance de que o acumulado de chuvas nos 90 dias do próximo trimestre fique abaixo da média histórica, 25% de chance de que fique em torno da média, e 10% de chance de que esse acumulado fique acima da média.



Fonte: Diário do Nordeste