História em Questão: 11 de Agosto, feriado Municipal em Mucambo. Leia o texto e descubra o motivo.


O ano era 1958, numa manhã de segunda feira, 11 de agosto, o jovem Gerardo Azevedo Araújo, de apenas 31 anos de idade estava no seu último ano de mandato como o primeiro prefeito de Mucambo. Era o terceiro dos dezesseis filhos do casal José Cláudio de Araújo e Francisca Azevedo Araújo. Era o período eleitoral, pois na ocasião haveria naquele ano eleições para Governo do Estado, como também para deputados, senadores, prefeitos e vereadores. Tinha planos de se candidatar a Deputado Estadual e eleger seu sucessor e tio, Raphael Cláudio de Araújo. Mas seu sonho foi interrompido, pois foi assassinado em plena praça pública.(...) O crime aconteceu por volta das 7:30 para às 8:00 horas após uma discussão entre o prefeito e o enfermeiro da cidade, Francisco Antônio de Sousa, ou Chico Antônio como era mais conhecido. Os dois eram adversários políticos: um do PSD e o outro da UDN. O local da discussão foi em frente à Farmácia São Rafael, localizada na Praça do Comércio, hoje Praça do Mercado Público. O motivo da discussão, provavelmente, foi insulto políticos, pois no momento, Gerardo Azevedo estava em um automóvel Jeep, “convidando” o povo para participar, à noite, de um comício. Ocasião na qual o candidato a governador Parsival Barroso viria conversar com os eleitores mucambenses.

Aquela manhã de segunda feira entraria para a história de Mucambo como sendo um dos dias mais triste que permeiam ainda hoje na memória dos que ainda lembram aquela terrível tragédia como a Senhora Maria de Jesus Gomes de Azevedo.

Um dia eu sai ... um dia de segunda feira! quando ele vinha num jippe aí ele botou duas boca no jippe e vinha convidar os trabalhador que ele tinha botado pra trabalhar no tempo da seca, ele vinha convidar todos pra tarde, onze horas era pra todo mundo largar o serviço pra vim fazer a recepção do governo que ia chegar [...] E tinha uma farmácia ali onde é hoje o prédio de fazer as reuniões de...da política, dos vereadores, tinha uma farmácia ali. Ali mesmo no meio tinha uns canterim, aí quando eu, ele vinha vindo o Chico Antônio saiu na frente e veio para a farmácia. Quando ele vinha vindo no jippe falando nas bocas aí o jippe parou e ele tava programado que ia descer chamar todos os trabalhadores pra vibrar com ele porque o governador ia chegar e era um dia de festa então ele ia fazer tudo o possível pra esse governo ganhar aí ele vinha programando no jippe quando chegou em frente a farmácia ele parou e ficou falando. Aí o Chico Antônio veio pra porta da farmácia aí disse não sei o que [inaudível] parece que ele chamou ele e ele parou de falar, quando ele parou de falar ele mandou ele descer do jipe que ele desceu ele ainda discutiu com ele na frente da farmácia ai ficou em pé ainda disse um bocado de coisa e o Gerardo também não sei o que ele falou pra ele. O Chico Antônio vinha de lá meteu assim a mão no bolso e detonou um tiro bem de frente com ele aí ele caiu logo dentro do refúgio, quando ele caiu dentro do refúgio eu corri [...].
O prefeito Gerardo Azevedo estava em seu Jippe acompanhado de seu cunhado Gumercino, que também saiu ferido. Os dois estavam fazendo propaganda política e convidando o povo em geral para se fazerem presentes no comício que se realizaria à noite e que contaria com a presença do candidato a governador Parsival Barroso e do candidato a Deputado Federal Expedito Machado.
Chico Antônio se encontrava na calçada da farmácia São Raphael, de propriedade de um Sr. de nome Vicente Petronílio Filho quando o prefeito em seu Jeppe se aproximava da farmácia localizada na Praça do Mercado público (Praça do Comércio) falando no serviço de radiadora montada em seu Jippe momentos antes, na casa de seu tio Raphael Cláudio, que era o candidato a prefeito apoiado por Gerardo.
Segundo consta no inquérito policial, Chico Antônio se aproximou do carro tentando coibir a propaganda do prefeito Gerardo, ameaçando-o com um revólver em punho e dirigindo as seguintes palavras: “Seu cabra sem vergonha porque você quando quer atacar um homem não faz de homem para homem e não em radiadora?” (Processo Crime, 1959, p. 35)
Constata-se assim que Chico Antônio se sentiu ofendido por alguma palavra que Gerardo fez uso quando falava ao microfone, e talvez, por essa razão teria se aproximado do Jippe iniciando uma discussão. É certo que ninguém parte para uma agressão sem motivo aparente.
O bate boca entre os dois partiu para a agressão física, quando Gerardo e Gumercino se agarraram com Chico Antônio tentando desarmá-lo, trocando “bofetadas” quando é efetuado disparos de revólver atingindo Gumercino no braço e em outras partes do corpo, conforme o laudo da perícia:

O paciente apresenta no ante-braço esquerdo um ferimento, produzido por arma de fogo (revólver - bala) com orifício de entrada e saída, partindo da parte posterior para o anterior atingindo partes moles do referido ante-braço, com regular perda de sangue; outro ferimento produzido a bala na região costo lateral esquerda com penetração sub-cutânea; outro ferimento ocasionado por bala no terço posterior da clavícula esquerda também produzindo penetração sub-cutânea; outro ferimento produzido por bala na dobra do cotovelo trazendo também leve penetração. Vale ressaltar que em todos quatro tiros o orifício de entrada tem a fuligem negra, com chamuscamento. É o nosso laudo. (Processo Crime, p. 11)

A luta terminou no interior da Farmácia São Rafael sendo que após vários disparos terem atingidos Gumercino, apenas um atingiu o Gerardo. Conforme o laudo da perícia o tiro atingiu a barriga, causando ferimento grave e posterior hemorragia:

Procedendo o exame cadavérico em Gerardo Azevedo de Araújo, constatamos o seguinte: A vítima foi alvejada com tiro produzido por arma de fogo (revólver), cujo projétil teve orifício de entrada a altura da região umbilical, com 3 (três) centímetros para a esquerda, com completa ausência de fuligem negra ou chamuscamento, penetrando em toda região intestinal e no seu percurso perfurou os órgãos subseqüentes e tragetória, alojando-se na parte posterior direita, a altura dos rins, notando-se a saliência do projétil no mais leve toque do tecido subcutâneo.O tiro provocou hemorragia interna, com o consequente falecimento da vítima. É o nosso laudo. (Processo Crime, p. 12)

Após ter atirado em Gerardo Azevedo e em seu cunhado Gumercino, Chico Antônio tentou fugir, mas não conseguiu êxito sendo preso pouco tempo depois.[...]. A prisão foi acompanhada por grande números de pessoas (operários) que se encontravam nas ruas da cidade.
Ao chegar à cadeia, que na verdade não passava de um quarto com janelas e portas de madeira,(LOCALIZADO HOJE NA FEIRA DO PEIXE) o assassino é devidamente guardado. A essa altura, o corpo de Gerardo, ainda em vida, é levado à Sobral num caminhão da Fábrica Raphael.
Na localidade de Cacimbas, distante um pouco mais de uma légua de Mucambo, o prefeito veio a falecer por volta das 09h30min da manhã. Os condutores do corpo resolveram então voltar para Mucambo. A cidade estava tomada pelos “cassacos” que tinham um grande apreço pelo prefeito. Havia um nítido sentimento de revolta na população e uma reação com violência já podia ser prevista. A morte do prefeito era vista como a interrupção do trabalho de um benfeitor, pois havia conseguido “emprego” para milhares de pessoas. Na ocasião, o Ceará passava por um momento de seca. Muitas cidades cearenses estavam sendo saqueadas pelos “flagelados” que não tinham o que comer, pois morando todos no sertão, eram em sua maioria agricultores pobres, sem terras e que dependiam das chuvas para sobreviverem. Nesse cenário de calamidade pública, medidas estavam sendo tomadas a nível federal-estadual para diminuir o drama vivido pelos cearenses. Vale ressaltar que a má distribuição de renda que resulta na privação de educação e vida digna faz com que as pessoas percorram caminhos ilegais e criminosos. No caso dos “cassacos”, como eram chamados os flagelados da seca, viam na pessoa do prefeito uma solução para os seus problemas, pois milhares de empregos surgiram no seu mandato em conseqüência da seca de 1958/59.
Tratava-se de uma frente de emergência conseguida com o Governo Federal, que na época era Juscelino Kubistchek, e que através do DNOCS enviava verbas para os lugares mais críticos do Estado. Vale destacar a habilidade do prefeito Gerardo em conseguir serviços para seus munícipes tão carentes de empregos, porém, é preciso também esclarecer que tais obras faziam parte de um plano idealizado pelo Governo Federal que se estendia por toda a dura década de 1950 visando segurar os flagelados no seu lugar, evitando assim que eles se deslocassem para os grandes centros urbanos.

Em sua maioria, além dos tradicionais açudes, eram obras de construção de estradas e rodagem, em que os retirantes se empregavam preferencialmente no próprio local de moradia. Os chefes admitiam-nos em turmas de 25 a, no máximo, 40 operários liderados por um deles. Os alistados acampavam ali mesmo nas imediações das estradas em construção. Os ‘feitores’ fiscalizavam o trabalho das turmas e os ‘apontadores’ passavam diariamente nas barracas para anotar nas ‘cadernetas’ a presença de cada retirante. Apesar da proibição, algumas famílias pobres conseguiam empregar, além do pai de família, alguns dos filhos menores, aproveitando as ligações pessoais com os políticos e lideranças locais (NEVES, 2000 : 96)

A citação acima é o fio condutor para compreender todo o contexto que Mucambo estava inserido: seca, eleições se aproximando, disputa acirrada para governador do Estado e muita pobreza da população. Além de pouca instrução, pois na época Mucambo não tinha nenhuma referência na educação sendo que havia apenas uma escola pequena: o “grupo velho” ou “grupo do cajueirinho” como era conhecido.
E foi nesse cenário que a multidão, liderada não se esclareceu por quem, se deslocou em direção a cadeia onde estava preso o assassino do prefeito. Eram para mais de 2.000 pessoas, amontoadas no beco da cadeia.

[...] aí o pessoal souberam e saiu todo mundo, as armas que eles tinham trouxeram: lavanca, machado, o que dá, foice, o que dava eles trouxeram, tudo, tudo que existia de ferro na mão deles. Eles se revoltaram tudo, você sabe o que é um enxame de formiga, um enxame de formiga se mexer com um formigueiro...olha não podia existir uma coisa mais feia do que aquela [...] olha você não enxergava o chão só de homem com lavanca, enxada, cavador e tudo, tudo, tudo. Num tinha ninguém que passasse. A polícia fugiu. Eles mandaram que a polícia saísse que eles esmagarra eles também. (entrevista com Maria de Jesus Gomes de Azevedo)

Apesar do esforço da polícia, era praticamente impossível apenas três policiais conterem a revolta e o desejo de vingança dos “cassacos”. [...]
Os “cassacos” lincharam Chico Antônio com seus instrumentos de trabalho: pás, picaretas, enxadas, pedaços de pau, pedras, conforme esclarece o corpo de delito:

procedendo o exame cadavérico(sic) em Francisco Antônio de Sousa, constatamos o seguinte: dois ferimentos na fronte e sub-fronte lateral esquerda, um ferimento na arte superior do olho direito e vários outros no rosto e uma contusão no peito esquerdo e costas, e, uma pequena contusão no joelho direito. (Processo Crime, p. 20)

O linchamento se deu, segundo os laudos, da seguinte maneira: quando os “cassacos” avistaram o corpo do prefeito sem vida após ter retornado da tentativa de socorro médico em Sobral, logo saíram em direção à cadeia que era muito próxima da casa de seu pai onde deixaram seu corpo. A rua foi tomada pela multidão.
Após o arrombamento da cadeia e se sentindo acuado pela multidão, Chico Antônio ainda teve tempo de arregaçar as calças conseguindo pular a janela da cadeia por cima da multidão que estava disposta a matá-lo, saindo correndo em direção à rua Padre Joaquim Severiano quando é arremessado uma pedra vindo da multidão derrubando-o no chão. Nesse momento os “cassacos” lançam suas ferramentas sobre Chico Antônio linchando-o até a morte. Segundo populares, momentos antes da tentativa de fuga, Chico Antônio estava rezando um terço e alguns dias depois após sua trágica morte, teria aparecido a uma senhora de Pacujá para vir terminar o terço por ele iniciado momentos antes de morrer. Dizem que sua alma é milagrosa!

Essa é a história que resultou no feriado de 11 de agosto(Feriado Municipal). Foram dois assassinatos no mesmo dia: o do prefeito Gerardo Azevedo e o do enfermeiro Chico Antônio.



Solon de Castro Braga